Deus e o diabo na terra de Conceição; Por Dr. João Vinícius Soares

 


No inicio dos anos 1900, no sertão de ferro e de fome, Conceição do Piancó já era o berço de muitas historias de coragem, força e destemor.

 

Em tempos que a lei do homem nada valia, Conceição já era historia, por ser terra da lei da valentia.

 

 No ventre seco da terra rachada,  nasceu o grito do povo esquecido:

 

“ Lá em Conceição do Piancó,  cangaceiro não sai vivo”

 

Estamos na era do Grande Cangaço e das Grandes Secas, a de 15 e a de 30 foram as mais cruéis da historia. O povo de Conceição teve que aprender a lidar com a seca, a fome e a pobreza.

 

Hoje contaremos um pouco dos recortes da passagem do Banditismo do Cangaço por Conceição, o bando de Lampião, pela primeira vez na historia do cangaço brasileiro, viu o seu Rei, Virgulino Lampião, ser alvejado por bala, com dois tiros, assim Conceição do `Piancó entrou pra historia.


 

Como um reflexo do abandono da nossa memoria recente, não temos registros oficias em Conceição, como sempre na tradição das grandes historias, é a tradição oral que salva boa parte deste nosso recorte.

 

A primeira vez que ouvi sobre o acontecido  foi escutando os causos de Josefa Furtado de Lacerda, Vovó Zefinha, ela era filha de Cícero Laranjeira de Lacerda ( Papai Ciço) e Maria Furtado de Lacerda ( Mãe da Malhada), Vovó Zefinha faleceu aos 99  anos, ela me relatava o fatidico dia, eu perplexo com o que escutava, catei um pedaço de papel velho que encontrei pelo chão e escrevi aquilo que conseguia.


Anos depois, deparo-me com mais um relato, da senhora Antônia Soares Alves, tia Toinha, ela era filha de João Soares Alves (Perés) e Josefa Limeira de Lacerda, falecida também aos 99 anos, sobriamente e temerária relatava em uma voz baixa, como quem fala o que deve permanecer em silêncio. 

 

O sol batia como espada em brasa,  varando o couro, o chão e o juízo, e a chuva, promessa que nunca arrasa,  dançava no céu, mas sem compromisso.

 

Lampião, Caboclo, sertão em chamas, mulheres valentes de olhar aceso,
nas veredas onde as almas se inflamam, o tempo é seco, cruel e indefeso.

 

Mas o povo seguia com fé que teimava em não morrer, entre a cruz do céu e o chão rachado,  Deus e o Diabo, na terra de Conceição, só um há de sobreviver.


 

O contexto da Conceição da época é bastante diferente da que vivemos hoje. A zona rual  era quem ditava as regras, o dinheiro dos plantios de algodão era o que movimentava o comercio.

 

Era também na zona rual aonde estava concentra as grandes famílias de Conceição, todas moravam no sitio mas tinham uma casa de passagem na rua. 

 

A cidade era bem pequena, não existe a rua nova – atual Governador Wilson Leite Braga; nossa rua principal era a da  Rua da Mangueira – atual Padre Manoel Otaviano; a Prefeitura era ao lado do calçadão - aonde hoje é a casa Salustiano Leite,  de um lado era o Cemitério Púbico, hoje é a Creche Municipal Fabíola Michele, do outro lado, ficava a Cooperativa dos Produtores de Algodão. A feira do sábado era as sextas no beco da pimenta, o comercio era na rua da praça da matriz; apenas uma escola pública, aonde hoje é a Escola Maestro José Siqueira existia a Escola do Estado – o prédio era divido em duas partes, do lado esquerdo funcionada a escola do Município, do lado direito a escola do Estado, o Estado emprestava algumas salas de aula para o Município.

 

Aos domingos a tarde as moças da cidade, as de famílias abastadas, faziam o passeio publico, com seus vestido das missas das 7 horas, seus chapéus e suas sombrinhas.

 

Lampião fugindo de um combate do Estado do Rio Grande do Norte, na cidade de Mossoró, decide atravessar para o Estado do Pernambuco pela Paraíba, sabendo do crescente comercio de Algodão na região de Conceição, realiza-rá a travessia pelo Rio Piancó.

 

Arrancharia-se em Conceição para conseguir mantimentos, cachaça e dinheiro dos então comerciantes e autoridades públicas,.

 

Fora alertado por alguns dos seus jagunços: “Lampião! Lá é Conceição do Piancó!”

 

Mas não se intimida, Lampião tinha plena consciência da misancene necessária pra impor a sua vontade: o medo e a morte.

 

Em terras do sol  conceiçoense vem sua primeira batalha. 

 

Lampião com cede, decide parar um pouco antes de entrar na cidade, no sitio Caatingueira, nas terras de Tio Amâncio, decide arranchar-se.

 

Amâncio Nuto de Lacerda, Tio Amâncio, nascido na então cidade de Mauriti, Estado do Ceará, em 21 de maio de 1891, era filho de José Soares de Sousa e Francisca Furtado de Lacerda ( Tia Francisquinha).



Tio Amâncio era casado com Rosa Soares de Figueirêdo, Tia Rosa, era filha de Joaquim Soares de Figueiredo e Ângela Furtado de Lacerda, nascida em 1912.

 

O bando de Lampião sai da cidade de Mossoró com 80 bandidos, no caminho divide-se em três grupos, o grupo que acompanha Lampião era composto por 42 homens uns falavam, outros que eram 20 homens, mas a policia confirma apenas 14 homens.

 

Aos dia 13 do mês de junho, uns falam que do ano de 1919 outros de 1927, encontraram na estrada perto da Caatingueira: Tio Amâncio e um vaqueiro, fizeram eles de refém, arrancharam-se por trás da casa de Tio Amâncio, aonde pediram água e passagem.

 

Lampião e Caixa de Fosforo decidem entrar na casa grande, encontram lá dentro, apenas Tia Rosa e Dona Ilza Siqueira, esta ultima era professora dos meninos de Tio Amâncio e Tia Rosa, ela vinha um vez por semana para a Caatingueira para dar aula particulares aos meninos, eram eles: Angelina Nuto, Aurora Nuto, Jandui Soares, Nilsa Soares, Antônio Soares, Joaquim Soares, Neide Nuto e Tarcisa Nuto.

 

Dona Ilza Siqueira tinha acabado de noivar, ostentava no dedo anelar a prova daquele amor, uma aliança de ouro – grande, cheia e brilhante – o que fez brilhar também os olhos do cangaço, em um tom de ironia e furria, Lampião ordena aos gritos: 

 

“Tira esse anel do dedo, dona moça! Entrega! Se não eu arranco com dedo e tudo,  tu fica sem dedo e sem aliança.”

 

Dona Ilza Siqueira, com a alvides e coragem que só as mulheres de conceição hão ter, engole o choro, ergue a cabeça, levanta da mesa, dirigi-se até Lampião e Caixa de Fosforo, estica o braço e grita: 

 

“Se é pra roubar cabra! Arranca tu mermo! Com dedo e tudo! Pra que fique marca do que tu é capaz de fazer! Eu noivei perante Deus! A aliança é a prova do meu compromisso, leva a aliança Lapião? e fico desonrada a Deus! Assume tu cabra, a culpa de atentar contra o Pai.”

 

Estava decretado a primeira derrota de lampião em Conceição. Não conseguiria roubar a aliança de noivado de Dona Ilza Siqueira.

 

Dona Ilza Siqueira, empunhou a arma da fé e lampião não ousou atacar. 

 

Eles beberam água, mataram um bode e seguiram caminho. 

 

Tia Rosa junta os meninos pequenos e corre pra cidade, Tio Amâncio junta todos os vagueiros para ficar de tocaia e defender o sitio, não deixar mais os cangaceiros entrar na Caatingueira.

 

Tio Amâncio manda um vaqueiro avisar aos seus familiares que Lampião já estava em Conceição, naquele tempo, ainda existia o distrito de Santa Maria, hoje é a cidade de Ibiara, e o distrito do Capim, hoje cidade de Santa Inês.

 

O Vaqueiro sai com a missão de avisar a Papai Ciço, no sitio Limeira; a Joaquim Limeira, no sitio Malhada; a Manoel Limeira, no sitio Boa Vista e a Madrinha Aldenora, em Santa Maria.

 

Papai Ciço de longe vê a poeira levantada pelo vaqueiro de Tio Amâncio, entendeu de longe que algo errado acontecia.

 

Papai Ciço previa as coisas, ele adivinhava! A titulo de curiosidade leitores, Papai Ciço muito antes já falava o dia e o ano que ele morreria, e foi exatamente como ele falou. Voltando a nossa historia, de pronto, arrumou um cavalo e falou pra sua esposa Mãe da Malhada: 

 

“É chegado a hora.” 

 

Mãe da malhada, entendendo aquelas poucas palavras, entendendo  o que aquilo significava, vai e busca Zefinha ( Josefa Furtado de Lacerda), passa na casa de sua comadre e pega Expedita Lacerda ( Expedita de Luiz Bernado).

 

 “Era chegado a hora de esconder as meninas”. 

 

Sempre que Lampião e seu bando passava em uma cidade, deveria esconder as meninas mais bonitas, já era lenda que o bando carrega as moças bonitas das cidades.

 

Assim foi feito! Esconderam as meninas mais  bonitas de Conceição do Piancó.

 

No Sitio Malhada das Cobras, havia uma grota, tão pequena que mal cabe uma pessoa, mas tão longe e dentro da mata que seria impossível os cangaceiros encontra-las, ali foi colocado Josefa Furtado de Lacerda e Expedita Lacerda, as meninas mais bonitas de Conceição estavam seguras na Grota da Malhada das Cobras, protegidas por galhos secos e muita fé.

 

Não houve tempo do vaqueiro de Tio Amâncio avisar a todos, os cangaceiros já estavam nas imediações do Sitio Boa Vista, ali roubaram um garoto pra fazer parte do seu bando, o filho de Manoel Francisco de Figueiredo e Maria Furtado de Lacerda, o nome dele era José Francisco de Figueiredo – Duca Limeira - Vovô Duca.

Com o rapto do menino, seguiram para o Sitio Nafrica, começa o império de terror de Lampião em Conceição, percebendo que não conseguiria pouso nem comida, põe fogo no Engenho Nafrica.

 

Lampião e seu bando continua até o Sitio Serra Vermelha, Saco da Ingazeira, aonde decidem tomar uma lapada de cana. 

 

Os cangaceiros vão sentar a sombra um pouco atrás das casas, longe da vista da rodagem, mas em um local fácil de fugir,  entertem-se tratando o bode roubado e bebendo a lapada de cana, esquecendo do garoto raptado. 

 

Com a esperteza, alvides e tomado pela coragem e destemor dos filhos de conceição, o pequeno Duca Limeira, percebe a chance de fuga, sobe em um dos cavalos do bando de lampião e dispara na carreira, mas pra ter acesso a mata fechada teria que entrar  com cavalo e tudo dentro da casa de Tia Maria.

 

Com a criança e o cavalo dentro de casa, a família de Tia Maria entra em desespero, todos começam a gritar, Tia Maria exclama: 

 

“Menino, tu é doido?”. 

 

Duca Limeira, sorrindo, por perceber que conseguira fugir, responde: 

 

“Bença Tia Maria? Doido é quem é quem vem atrás de mim. ” 

 

Em disparada pela caatinga  fechada, o pequeno Duca consegue fugir, ferido dos espinhos das juremas mas com medo, passa três dias escondido na mata.

 

Estava decretada a segunda derrota do Rei do Cangaço em Conceição. Não raptaria Duca Limeira.

 

O bando de Lampião decide por fogo no Engenho do Saco da Ingazeira.

 

Agora o ultimato seria feito, Lampião cansado de tudo que já havia passado, escreve uma carta para o então Prefeito de Conceição, o senhor José Leite, este é tio do Governador Wilson Leite Braga, na carta a ameaça estava escrita: Fornecer 06 quilos de carne, 10 rapaduras e 3 garrafas de cana, ou, Lampião e seu bando, faria o mesmo que Nero fez a Roma, invadiria Conceição e tocaria fogo na cidade.

 

O encarregado por levar a carta ao Prefeito foi seu Zé Montenegro, José Montenegro, o bando de Lampião decide esperar a resposta da carta perto da estrada da Serra  Pintada, embaixo da Cachoeira do Inferno, era período de seca, assim na cachoeira do inferno não tinha água.

 

Zé Leite, no primeiro momento, fica tentado pela proposta, aceitaria as condições e levaria pessoalmente a encomenda, Zé Leite iria conhecer o famoso Rei do Cangaço.

 

A ideia não prospera! Tio Jacinto, Jacinto Francisco da Costa, não concorda, reuni-se com José Leite e mais alguns homens da cidade, querem matar o Rei do Cangaço na Cachoeira do Inferno, lá seria o lugar ideal, a geografia da região ajudaria.

 

O lugar é uma depressão, rodeada por pequenas serras, mas precisariam contar com a ajuda de Zé Montenegro, só ele saberia levar ao local exato, até hoje ninguém sabe porque Seu Zé Montenegro decidiu ajudar.

 

Reuniram-se: Jacinto Francisco, Manoel Limeira, Joaquim Limeira, José Leite com o Sargento Temistocles, então delegado de Conceição e o senhor Raimundo Quintino, então subdelegado, estava decidido: Conceição não faria acordo com o Cangaço, e para não ser destruída, só restaria aos homens de conceição ir ao encontro do Diabo Loiro na Cachoeira do Inferno para matar ou morrer.

 

O grupo reúne entorno de 50 homens de Conceição, que vão a cavalo, na direção  da estrada da Serra Pintada. Havia muito medo, coragem e fé no que eles iriam enfrentar. 

 

Alguns tomavam uns cole de conhaque, e como planejado, Seu Zé Montenegro coloca o grupo de homens de Conceição em um lugar ao alto da Cachoeira do Inferno.

 

Antes de todos estarem prontos, um tiro vindo da Cachoeira do Inferno dá o alarme:  é chegada a hora de provar a valentia, matar ou morrer por Conceição. 

 

Tio Jacinto grita: 

 

“O cabra de Conceição que correr com medo, se não morrer da bala de Lampião, morre na minha mão”

 

O grupo de Conceição, não se intimidou, com uma coragem daqueles que nada temem, que deixaram seus filhos e mulheres em Conceição, abriram fogo contra o Diabo Loiro, só existiria um destino, voltar pra casa com a vitoria.

 

Nenhum passo pra trás, o grupo de homens de Conceição prosseguiu durante 1 hora de tiroteio com o bando de Lampião.

 

E está cravado a bala a terceira derrota de Lampião em Conceição

 

O sertão antigo, de vozes caladas,  ainda ecoa nos cantos da história,  com sua coragem de almas marcadas,  faz do sofrimento sua própria glória.

 

No sertão de Conceição, terra de sol e paixão, vive homem valente, de coragem e coração.


Sob o céu de estrelas, enfrenta o árido e o cão, com força e esperança, luta com determinação.

 

Seu olhar é de fogo, sua alma é de aço, enfrenta as tempestades, desafia o fracasso. 

 

Na seca e na chuva, mantém-se firme e forte, pois sabe que a coragem é seu maior suporte.

 

Homens de Conceição, de alma guerreira, seu valor é luz que ilumina a fronteira.


Que a sua valentia inspire a todos a seguir, pois no coração do sertanejo, há sempre um porvir.

 

Lampião e seu bando fogem da terra do sol de Conceição, conhecendo não só o valor da valentia do homem conceiçoense, Lampião levará encravado na pela, pra que nunca esqueça, duas balas.

 

Lampião nunca esqueceu as duas  balas que o atravessou seu corpo, nunca esqueceu Conceição, lembrou sempre. Por isso nunca mais voltou.

 

O grupo de homens voltou como heróis, mas seus nomes não são lendas, a nova geração de filhos de Conceição nem sabe quem são, uma tristeza.

 

Escrevo hoje com o sentimento de dever cumprido, para que o tempo não apague a historia, e que todos nós conceiçãozenses lembremo-nos sempre: 

 

Houve um grupo de 50 homens, que não tiveram medo da morte, de lutar por Conceição, eles são os nossos heróis, não podemos esquece-los.

 

Viva Conceição do Piancó.