Entre Cancelas e Rudilhas: o Caçuá da Saudade; Por Dr. João Vinícius Soares


Anda morrendo devagarinho, como fogo de candeeiro no fim do óleo, uma geração do nosso sertão. A geração que, mesmo analfabeta de letras, foi doutora em decência. Que não sabia assinar com floreios, mas firmava o mundo com um aperto de mão. Que criou filhos na lida da roça, à sombra das serras do Vale do Piancó, entre o pó da estrada e a esperança de inverno bom. Em Conceição, quando a manhã se abre, ainda se ouve de longe o chocalho do gado e, se a gente fecha os olhos, enxerga de novo a nascente do tempo nos sítios Boa Vista, Cardoso, Limeira, Inveja, Timbaúba — cada nome uma lembrança, cada lembrança um retrato que o vento insiste em folhear.



Está morrendo a geração da cancela que range, do pote d’água fresco no giral, do cigarro de palha que se acende no canto da boca, do cachimbo que pensa junto com o silêncio. Gente que conhecia o sol pela sola do pé e o calendário pelo canto da asa-branca. Que lia o céu como quem decifra mapa: se a nuvem vinha de leste, era aviso; se a flor do mandacaru abria de madrugada, era promessa. Eles aprenderam a escrever o nome tardiamente, quando muito; mas sabiam de cor as rezas e o preço da honra. No Sítio Boa Vista, vendia-se um bezerro no fiado e ficava tudo apalavrado: a dívida anotada não no papel, mas na consciência. No Cardoso, bastava um “pois bem” para que o combinado virasse lei. Na Limeira, dois olhares valiam uma escritura. E na Timbaúba, onde o tempo parece caminhar de chapéu de couro, o que se prometia de manhã dormia cumprido à noite.

Está morrendo a geração do caçuá no lombo do jumento, da rudilha firme, da estrada de barro que levava a tudo: feira, missa, batizado, casamento, enterro. Geração que carregou milho, feijão, mandioca e tristeza — mas nunca deixou cair o que era mais pesado: a dignidade. Mãos calejadas que aprenderam cedo a linguagem áspera da enxada e, mesmo assim, guardaram ternura para repartir o último pedaço de rapadura com o vizinho. Mulheres que, ainda na madrugada, riscaram fósforos para acender o candeeiro, coaram o café, bateram a massa do bolo de milho e amarraram esperança no pano da cabeça. Homens que, quando o sol se punha, paravam o corpo, mas deixavam o coração de vigília: “tomara que a chuva venha, tomara que os meninos estudem”.


Porque está morrendo, sobretudo, a geração que educou os filhos com a força do exemplo. Analfabetos, sim — mas nunca ignorantes do que importa. Eles sabiam, com uma sabedoria que não cabe em cartilha, que a escola é ponte onde antes só havia rio. Empurraram os meninos e as meninas estrada acima, do Sítio Inveja até a cidade, da Timbaúba ao colégio: “Vai, meu filho. Vai, minha filha. O livro que eu não li, você lê por mim.” Houve quem vendesse a cria da vaca para comprar o caderno de dez matérias. Houve quem andasse léguas para não faltar à reunião da escola. Houve quem mal conhecesse o próprio nome, mas soubesse dizer com perfeição a palavra que salva: “estudo”.

E como doeu, tantas vezes, ver que o mundo, tão grande, cabe num não. Não choveu. Não deu. Não vai dar. E, ainda assim, essa gente abriu vereda com o peito. Quando o inverno falhou, plantou-se coragem. Quando a seca estalou o chão, regou-se terra com fé. E quando a vida apertou, abriu-se o coração. É essa gente do Sítio Limeira que “ajeita as coisas” com um pedaço de arame e um pedaço de conversa. A do Cardoso que conhece cada bicho pelo passo. A da Boa Vista, que sabe que um dia a mais de trabalho é também um dia a mais de pão. A da Inveja, que ri do nome e não inveja ninguém, porque aprendeu que o que vem da roça não é pouco: é de verdade. A de Timbaúba, que faz do tempo um compadre paciente e, ao fim do dia, agradece a Deus pelo que teve e pelo que faltou — porque foi o que sobrou que ensinou.


 

Hoje, as salas de casa ficaram mais silenciosas. O terço continua sobre a mesa, a cadeira de balanço guarda o formato de um mundo inteiro, e o candeeiro, que já iluminou tantas noites de conversa, descansa, como se respirasse lembranças. Pelas frestas das janelas ainda passa o cheiro do almoço de domingo: feijão de corda, arroz soltinho, uma carne de sol dessalgada na véspera. No alpendre, a cancela sabe que a mão que a empurrava já não vai voltar. No giral, o pote d’água escuta as vozes de antigamente, porque a água é memória. E no terreiro, as marcas de passos — de idas para a roça, de voltas da feira — insistem em dizer que ninguém parte de todo.

Mas, se é verdade que essa geração anda partindo, também é verdade que o que ela plantou está crescendo — no miolo dos livros, no diploma pregado na parede, no jeito de cumprimentar com respeito, no ato de pagar o que se deve, de honrar a promessa, de cuidar do que é dos outros como se fosse nosso. O futuro subiu no ônibus às cinco da manhã. O futuro pegou carona na traseira do caminhão do leite. O futuro atravessou a rua com o caderno apertado contra o peito. O futuro aprendeu que “bom dia” abre portas, que “por favor” perfuma as palavras, que “muito obrigado” é cerca que protege a casa.

Há quem diga que o mundo agora é outro, que contrato bom é o que tem firma reconhecida, que respeito é coisa de papel. Mas a gente, do alto das serras de Conceição, sabe que papel não sustenta telhado se a viga do caráter estiver podre. E caráter, essa madeira rara, eles nos deram a punho, no serviço, na partilha, na retidão. Se hoje um de nós pode assinar em letras grandes, que não esqueça de escrever por dentro, em silêncio: “eu vim de lá”. Do candeeiro, do caçuá, da rudilha, do pote d’água, do cigarro de palha, do cachimbo que pensa. Da palavra que ainda pesa mesmo sem testemunha. Do amor pelo chão rachado que, quando chove, abre um sorriso largo de açude novo.

Está morrendo, sim, uma geração. Mas não se morre do que se multiplica. Enquanto houver quem atravesse uma cancela para dizer “entre”, quem parta o último pedaço de bolo em quatro, quem ensine um filho a ser honesto antes de ser importante, essa gente permanece. Permanece no jeito de falar baixo com respeito aos mais velhos, no costume de tirar o chapéu à sombra da igreja, no hábito de olhar o céu antes de sair de casa. Permanece quando um professor em Conceição chama a turma para estudar, e os meninos abrem os livros como quem abre uma janela. Permanece quando alguém devolve o troco a mais. Permanece quando um acordo se cumpre porque foi apalavrado.


No fim da tarde, a luz desenha de ouro as cercas de estaca. O vento que desce das serras passa a mão no rosto da gente como se fosse benção. E eu penso que talvez seja isso: eles não se vão — viram brisa. Brisa que apaga o candeeiro, mas acende, lá dentro, uma chama que não se apaga: a chama da gratidão. Porque, se hoje o mundo nos quer de olhos abertos, foi essa geração, de mãos rachadas e coração imenso, que nos ensinou a enxergar. E a estudar. E a lutar. E a honrar a palavra — como quem assina o próprio destino diante de Deus e do sertão.

 

Autor: João Vinícius Soares de Figueirêdo