Ontem eu vi Deus. Vi-o nas ruas empoeiradas de Conceição, quando a cidade começa a entrar na sua estação de estiagem e o vento quente faz arder a pele como se cada sopro fosse um lembrete do que está por vir. O céu, de um azul duro, parecia sem nuvens e sem tréguas, e a terra, rachada, guardava nas fendas a memória das últimas chuvas. Era tarde, a luz amarela se espalhava pela praça, e a poeira levantava dos passos apressados como um incenso antigo, denso e teimoso.
Dobrei na esquina das velhas calçadas da rua José Peixoto de Alencar, como quem desce pra casa de Dona Nalva, encontrei um homem. Pele curtida pelo sol, chapéu gasto, mãos que conhecem a aspereza da enxada e a ausência da água. Ele caminhava devagar, como quem mede o tempo pelo ranger das portas, pela sombra curta ao meio-dia, pela espera do carro-pipa que tarda a chegar. No rosto, não havia queixa ruidosa, havia uma dignidade silenciosa, uma fé sem alarde. Ele me olhou — e naquele olhar, onde cabem a dor de um mundo inteiro, a família, a roça, o gado magro, a esperança e o cansaço — eu vi Deus.
Vi Deus no brilho insistente de quem aprende a conversar com a quentura, de quem faz da paciência um ofício, de quem não desiste do amanhã mesmo que o hoje lhe negue a chuva.
Mais adiante, perto do antigo Silo, chegando na rua Amâncio Nuto, à sombra generosa de um pé de algaroba que teima em não morrer, mesmo sem aguar, encontro um menino.
Pés descalços, joelhos esfolados, acho que um pedaço de sorda na mão. Ele me fitou com uma mistura de curiosidade, dor e espera — um olhar do menino era profundamente dolorido, como quem fala: “estou aqui”, aquela espera tão própria do sertão, que é menos passividade e mais resistência.
No fundo dos olhos dele havia um pedido mudo, mas havia também um mundo inteiro: a vontade de curar a dor, a fome, a pobreza, o desejo simples de voltar para casa com a barriga aquietada. Eu vi Deus ali, no lampejo de esperança que insiste em nascer onde a estiagem se estende. Vi Deus no sorriso tímido que rasga a tarde, como se dissesse: “Ainda dá.”
A cidade seguia muda pro lamento do homem e do menino, seguiu o seu ritmo de ventos quentes e passos curtos, e eu caminhava com a sensação de que Deus passeava comigo e, ele caminhava, revelando-se no binômio que a seca expõe sem pudor: o olho do homem sertanejo que sofre com a quentura e o olho do menino do sertão que espera por ajuda.
Nesse encontro, uma verdade simples se impõe: tivemos muitas vitórias sociais, sim — escolas que chegaram, estradas que encurtaram distâncias, cisternas que ensinaram a guardar o inverno para estiagem, programas que levaram comida para a mesa e dignidade para o cotidiano. Mas, ainda assim, a fome assola. A pobreza ainda marginaliza. A fome dói e maltrata.
Dói no estômago vazio, claro, maltrata o corpo cansado, mas também fere por dentro, quando a pessoa sente que não é vista. E se eu vi Deus ontem, foi porque Ele se fez ver justamente no que não pode mais ser ignorado.
Porque Deus, no sertão, não se esconde no extraordinário: Ele se revela na luta ordinária de todo dia. Está no barulho do balde batendo no fundo seco do cacimbão, no estalo do chão que pede água, no cuidado de quem repara se da pra repartir o pouco que tem — um prato a mais, um copo de água, um pedaço de sorda.
E, no entanto, não vi Deus apenas no sofrimento — vi Deus também no que resiste. Vi-o no mandacaru que floresce de madrugada, fazendo da noite um pequeno milagre branco. Vi-o no sopro de vento que alivia por um minuto a tarde incandescente. Vi Deus na multidão que se organiza sem alarde, no professor que atravessa bairros para alfabetizar, na agente de saúde que sabe o nome de cada criança, no agricultor que aprende uma técnica nova para fazer brotar a horta em tempo de secura. Vi Deus no gesto simples e revolucionário de quem acolhe.
Porque é assim: a estiagem nos testa, mas também nos convoca. Ela nos chama a pensar políticas públicas que não dependam do improviso; nos chama a fortalecer o que já funciona e a corrigir o que se perde no caminho; nos chama a, como comunidade, lembrar que dignidade não é favor.
Ontem, eu vi Deus e entendi que ver Deus é aceitar o chamado à responsabilidade: melhorar o abastecimento, cuidar das cisternas, proteger as famílias mais vulneráveis, ampliar a merenda, apoiar as cozinhas solidárias, fomentar as hortas comunitárias, garantir o básico que transforma o cotidiano — água, alimento, trabalho, estudo. O milagre de que precisamos não desce do céu em jorros; ele se faz com mãos humanas, juntas, com o poder público e a sociedade de mãos dadas, em vez de braços cruzados.
No cair da tarde, quando o sol se encostou atrás dos morros e a cidade ficou coberta de uma penumbra vermelha, eu parei um instante para respirar. O vento, finalmente mais brando, trouxe o cheiro da terra quente como quem sopra esperança. Ali, no breve refresco, entendi que a fé do sertanejo não é a negação da realidade — é a coragem de encará-la com os pés no chão e os olhos no horizonte. E talvez seja por isso que Deus escolhe tantas vezes se mostrar por aqui: porque no sertão, cada gesto de cuidado é uma oração, cada ato de partilha é um salmo, cada água repartida é um batismo.
Ontem eu vi Deus. Vi-o no homem que não se curva, no menino que não desiste, na mulher que organiza a fila, no jovem que carrega o livro ate a escola, no idoso que conta com doçura a história das chuvas passadas. Vi Deus no abraço que consola, no pão repartido, na mão que puxa outra mão para cima. E, ao voltar para casa, eu soube: a seca é forte, a quentura é bruta, a poeira é persistente — mas mais forte é a gente que, de mãos dadas, decide que ninguém vai ficar para trás, ninguém solta a mão de ninguém.
Se ontem eu vi Deus, que hoje eu O reconheça de novo, não apenas nos olhos que pedem, mas também nas mãos que agem. Porque o sertão me ensinou que fé bonita é aquela que se faz concreta: água no pote, comida no prato, dignidade no cotidiano. E, quando isso acontece, o milagre deixa de ser exceção e vira hábito. Ontem eu vi Deus. E desejo, de coração, que amanhã Ele seja visto no sorriso aliviado de quem, enfim, matou a sede e a fome.
Por: João Vinícius Soares de Figueiredo / Fotos Reprodução

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